Cine Astória_marcelo amm

Lúcia, mulata, 42 anos, dois filhos, conservara bem o corpo, 1.70m, pernas grossas bem torneadas, o quadril ficou um pouco mais largo criando uma pele flácida abaixo do umbigo, cuja foi resolvida em várias aulas de natação – 30 min. diários na academia do Yatch Club.
Enrico, seu marido, italiano, 50 anos tornou – se inconveniente nos dez anos de casamento, no entanto, conveniente pai exemplar e dos seus caprichos de mulher: a manutenção da aparência, o perfume importado e o cuidado com a educação dos filhos.
Inconseqüente com o corpo, muita comida italiana e vinhos deram – lhe uma beleza descuidada, muita barriga e dentes amarelados – alem disso uma irritante explosão de temperamento por besteiras.
Enquanto, ela tornara – se a mulher bonita, atrativa para os jantares de negócio – bem, ele sabia que muitos dos seus contratos fechados se deram em grande parte pela sedução que a sua mulher exercia nos olhos dos homens.
Por várias vezes quando voltei do trabalho pensei ter visto Lúcia em pé, ali bem próxima ao Cine Pax – a maquiagem forte, o vestido um pouco mais justo ao corpo e o cabelo arrumado diferente não me davam a certeza – era 1954 e isto não era tão comum no procedimento das mulheres dos anos dourados.
Quando cheguei em casa liguei pro Nelson Rodrigues, noutras vezes pro meu amigo Vinicius de Moraes – ambos bons entendedores da alma feminina – e em frases diversas acabaram por conservar em paradas estanques da respiração o suspense eloqüente terminante, imperativo – algo cujo se não me falha a memória “ você sabe o que ela está fazendo!” Telefone desligado, cabeça funcionando achei melhor esquecer.
Ontem, deixei o carro distante do escritório na volta para casa. Fumei um cigarro Yolanda – o último que eu tinha na carteira – enquanto sentia o vento de Copacabana – me faz bem ao final de tarde. Na Farme de Amoedo o cartaz do filme “A um Passo da Eternidade‘ com Sinatra, Donna Reed e Deborah Kerr já celebrava três meses de exibição e as filas á tarde já não eram tão grandes quanto na estréia. Novamente, vi aquela mulher, parei na banca comprei mais um maço de cigarros e a revista “O Cruzeiro” que apontava como certa a vitória de Marta Rocha à Miss Brasil, aproveitando para me certificar se era, realmente, Lúcia.
Dez minutos, mais tarde, o Freitas em seu Buick Le Sabre passou e balançando dois dedos da mão direita ela o cumprimentou. Ele seguiu, estacionando na esquina da Av. Copacabana e retornando ao cinema, comprou dois bilhetes, balançando – os entre os dedos para que ela o visse entrar no corredor que dá acesso ao foyer.
Cinco minutos, ela também entrou, encontraram – se como se fosse por acaso comprando balas no baleiro móvel. Esperei outros dez minutos, deixei que os meus olhos se acostumassem com o escuro da sala, localizando – os pus-me a sentar duas filas atrás de onde estavam.
Lúcia tinha os seios nus sugados por Freitas, enquanto, uma de suas mãos sôfregas tentava – lhe abrir o fecho éclair – o ápice é o momento em que o Freitas arrancou de uma só vez sua calcinha molhada.
Antes de o filme terminar, saíram e foram para o Pensionato Feminino sumindo na escada ascendente.
Pensei contar para o Enrico. E, se ela dissesse que eu também já tinha dado em cima dela?
Pensei chantageá – la e exigir a minha vez com ela, a minha recompensa do segredo compartilhado, todo homem faria isto, mas eu não fui cafajeste.
Fiz um bilhete anônimo para Enrico. Me arrependi dez minutos mais tarde de tê_lo posto por debaixo da porta.
Passados oito dias, na sexta-feira, ás 6hs no por do sol, Enrico foi visto louco correndo mar de Copacabana á dentro – queria ter fugido, chegado do outro lado á Itália.




Fotos: Google
Escrito por às 16h34
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