Bernardo e Bianca_marcelo amm

Como é possível que de uma nuvem tão escura se veja o sol, trilhas e risos num quase céu denso?
Queria ser feliz desde os 15 quando conheceu o céu. O céu: 1m80, 19 anos, aquelas pernas, aqueles braços e aquele abdômen. Um olhar barra pesada de sobrancelhas que derrapavam, propositalmente, para um motel vagabundo, passando por matas, rasgando avenidas como a máquina ponteia uma velha roupa colorida rasgada pelas farpas impiedosas do arame. Conduzida por um adolescente péssimo motociclista, uma garota [odiava ser chamada de garota] uma mulher ou quase uma mulher em formação que sustentava nos seios uma camiseta branca, bem sacana, daquelas que mostram aquele trecho entre o final da coluna e os dois ossinhos da lateral da cintura onde sustenta o jeans délavé, também a saia ou também o short jeans – índigo blue jeans. Uma das mãos dele movimenta suave ascendente a partir do joelho – o suficiente para lhe permitir acesso ao caminho – aquela boca e como ela joga o cabelo pra trás e no umbigo, misericórdia, tem de piedade – piercing com strass.
Nunca mais se viram... 15 anos depois se reencontraram por acaso num Shopping, na Praça de Conveniência, na esquina da Colcci. Ela sacou quando ele escondeu a aliança no bolso e a forma como prolongou a conversa sem que pronunciasse uma vez sequer o seu nome.
- Vou lhe poupar o desconcerto de não lembrar o meu nome, desde aquele dia ainda me chamo Bianca.
- Eu continuo Bernardo.
- Sei lembro! – um dia vi você passando no ônibus e mandei um torpedo!
- O que tinha escrito?
- Adorei o seu cabelo. É novo?
- Ah quando eu cortei o cabelo, mas meu celular foi roubado.
- Não nos falamos mais.
-Como Bernardo? – como?
Bianca queria ser feliz aos 30 quando percebeu que era quase céu azul, mas era nublado e aquelas sobrancelhas agora derrapavam para a outra, a aventura, a amante, a traidora. E, ela disse: não.
Bernardo sumiu ali na esquina onde por trás da Dress To há uma saída para o estacionamento.
Bianca, 30 anos, alguns dias e minutos está a 60 minutos usando um vestido branco de comprimento até os joelhos, uma bolsa vermelha e sandálias rosas com saltos. O único movimento que faz é levar á boca um bombom de chocolate e deixar o papel cair á sua volta. Era céu azul lá fora, mas as estrelas partiram e restaram, apenas, suas embalagens desordenadas no chão orientadas pelo ar que os outros passos produziam e desorientados seguiam vagos como o olhar que um dia pareceu paraíso.



fotos:google
Escrito por às 10h21
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